FOI-SE COM COBRE E TUDO

Os trabalhos manuais do lar e eu não conseguimos nos acertar, não fomos feitos um para o outro. Os mais astutos dirão que isso é desculpa para não fazer, mas a minha esposa é testemunha ocular dos fatos que a afirmação da primeira frase é a mais pura verdade.

Então, para não pegar os incautos de surpresa, vou contar a história do dia que arranquei… Não vou dar spoiler aqui, leia e tire as suas conclusões.

Eu e minha esposa nos casamos em uma agradável noite de 14 de março – por motivos óbvios não vou me arriscar a escrever o ano – mesmo dia do aniversário do meu avô (um grande cara!). Porém, antes disso já vivíamos em pecado, pois morávamos juntos e foi nessa primeira casa que aconteceu o causo. E sabe como é, o cidadão passa a ser o chefe da casa, o macho alfa e tem que dar o exemplo, além de ser sempre solícito para as tarefas.

E mesmo já morando alguns meses em nossa primeira casa, uma certa tarde resolvi dar uma olhada na lavanderia e vi que lá tinha um troço (não me pergunte termos técnicos, por favor) que se parecia muito com a porra para conectar a mangueira do gás, até com aquela chavinha de abrir e fechar. No alto dos meus conhecimentos de construção e engenharia enchi os pulmões e chamei minha “senhoura”, todo orgulhoso de mim, e com ares de sabedoria que só um monge tibetano tem, atestei: “temos tubulação de gás nessa casa, não precisamos mais deixar o botijão do gás ao lado do fogão e conectado com a mangueira, pode ser perigoso”.

Vale um adendo aqui: até hoje não sei o semblante da minha “senhoura” foi de muita admiração pela minha descoberta ou se no íntimo pensava que merda tinha feito. Mas enfim, quem pariu Mateus que o embale, já diria o adágio, mas neste caso, deve ter pensado, “vamos ver o que o engenheiro descobriu”.

De pronto me fui para a cozinha para ver se tinha a outra saída do gás para o fogão, o que para minha surpresa a alívio tinha, se não, imagina a vergonha! Vamos ver se funciona: conectei o pedaço da mangueira no buraco que tinha na lavanderia, fui lá desatarraxar o botijão do gás, pois agora seria a hora da verdade…

Detalhe: fazendo toda essa obra complexa de engenharia sozinho, sem ajuda da minha sempre prestimosa mulher, sem quebrar nada e o melhor, sem um corte, um ferimento. Até eu estava orgulhoso de mim, mas para ficar com a moral lá nas alturas, a coisa tinha que funcionar e não explodir toda aquela merda.

Enfim, tudo montado no lado de cá da área de serviço, gás conectado; corri para cozinha para conectar os bagulhos no fogão para os testes finais. Chegou o momento dos tambores rufarem…

“Vou ligar o gás aqui e você testa se está funcionando o fogão aí”, já com aquele ar de superioridade de quem estava prestes a ditar como a banda tocaria na nova família que estava sendo formada. “Tu ligaste o gás, pois não está saindo nada aqui, quiçá fazer sair fogo das bocas do fogão”, já petardou a patroa da cozinha. Para encurtar a história neste exato momento que a casa estava fedendo a gás ficou decretado – a até hoje não ousei desobedecer – de quem ditaria como a banda tocaria em casa.

Mas não acabou por aí a história – sem pressão cacete, por favor – já que toda a minha tese e descoberta de engenharia, técnicas domésticas ou seja lá que porra era aquela, caiu por terra, tinha que desfazer a cagada que tinha começado. Pois bem, lá me fui com o botijão de gás para a cozinha arrumar a bagunça que tinha feito. Na área de serviço ficou a mangueira pendurada, no buraco do gás, e claro, teria que sair dali.

Delicadamente tentei tirar a mangueira de gás do engate da parede, para não deixar transparecer que era uma nulidade até para isso, mas sem sucesso. Minha senhora então me deu um chega para lá e tentou, sem sucesso também. Logo, me senti dono da situação de novo e lancei um “pega a faca lá na cozinha que vamos cortar isso aqui”. Uma técnica extremamente perigosa, tendo em vista que seria uma faca de serrinha, com ponta e eu estaria manejando o instrumental para a cirurgia.

Como cortar também não deu muito certo e não íamos estragar o nosso jogo de talheres que ganhamos quando resolvemos brincar de casinha e morar juntos, com o orgulho abaixo do cu do cachorro e para me dar aquela levantada na moral, minha nubente (lembre-se que só nos casamos depois de viver alguns anos em pecado) decreta: “arranca a mangueira, puxa com força”. Era melhor ela não ter dito isso, pois com certeza, deve ter se arrependido amargamente.

Sabe aquele guerreiro, depois de ter sido humilhado pelo inimigo, no meu caso a porra de uma mangueira de gás, mas que junta suas últimas forças para lutar? Esta cara fui eu naquele fatídico dia: me levantei, puxei o ar, peguei a mangueira e dei duas voltas com ela entre as mãos, olhei fixamente nos olhos da futura mãe dos meus filhos – que neste momento devia estar cheia de orgulho e pensando ”esse é meu herói” – disse que ia puxar resolvendo aquela questão por bem ou por mal.

Primeira tentativa e nada! Cacete, se for perder para essa mangueira, vou ganhar de quem? Em frações de segundos, cerrei os dentes e gritei mentalmente (se é que isso pode acontecer, mas não podia mostrar mais desespero pelo fracasso do que a situação estava se apresentando) tu vai sair dessa merda de conector agora… Pude comprovar que as palavras realmente tem poder: pois não arranquei só a mangueira, mas como o cano de cobre da parede, com cimento, reboco e tudo mais que estava pela frente!

Depois disso aprendi a não me meter a fazer aquilo que está fora da minha capacidade. É em vão lutar contra a sua natureza!

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2 comentários em “FOI-SE COM COBRE E TUDO”

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