FERROU MEU CARNAVAL

Se tivesse Campeonato Mundial de Fazer Merda, meu amigo, não tenha a mínima dúvida que eu já era referência na modalidade. Inclusive com alguns títulos mundiais para comemorar. Se comemora? Enfim, vamos para uma destas façanhas.

Estava eu com os meus 17 anos, aquela fase que tu te achas adulto e responsável, apesar dos teus pais ainda te acharem um piá de merda, família toda reunida no litoral norte gaúcho, aquela freeway lotada – em tempo e para aqueles que não são do sul, é o nome que é dado a BR-290, que liga Porto Alegre ao litoral – nas sextas-feiras para aproveitar o final de semana à beira da praia, aquela maresia marota (um cacete, para quem usa óculos tem que lavá-lo a cada quatro horas, pois se não bastasse a miopia, tem a maresia), o vento nordestão pegando e aquela água marrom. Para voltar no domingo coloca as maravilhas já citadas acima e mais aquela queimadura do sol. Logo, aí se explica um pouco porque nunca fui de praia.

Como a nossa família, até então tinha casa no litoral, o verão era todo lá, mas na medida que fui crescendo na mesma proporção fui gostando menos de praia. Sempre que tinha a oportunidade de ficar na minha cidade, ficava com o meu pai durante a semana e nas sextas-feiras voltávamos para o litoral. Já era grande para algumas coisas, mas não para ficar os dois meses de férias “sozinho” na cidade, até porque “enquanto tu morar na minha casa e viver as minhas custas tu não fazes só o que tu queres”; quem não ouviu essa frase algumas vezes que atire a primeira pedra!

Buenas, mas naquele ano estava resolvido (não me pergunta que eu não guardo datas, até o ano de nascimento dos meus filhos eu tenho que parar, contar nos dedos e calcular), não teria para ninguém e não passaria o Carnaval no litoral, ficaria em São Leopoldo (uma agradável cidadezinha as margens do Rio dos Sinos) – se não sabe onde fica vai no Google e divirta-se – e as festas seriam com as parcerias de colégio. Outro parêntese de merda, antes que me perguntem eu respondo, com 17 anos estava no colégio, pois repetir dois anos faz parte do escore para o Campeonato Mundial de Fazer Merda, se houvesse um.

Mas até o momento era o que eu queria, não o que os meus pais queriam; seria necessária defender uma tese de mestrado para a mais ferrenha banca, onde os avaliadores ficariam naquele debate: “pergunte para o seu pai, para ver o que ele acha”; “e a tua mãe, o que disse (?), vê com ela”. Fora aquelas perguntas que devem ser respondidas na hora da defesa do trabalho: “tu achas que realmente merece ficar em casa, tu vais te comportar, não vai trazer ninguém para dentro de casa” e blábláblá Whiskas sachê (não estou ganhando nada da marca, se bem que não seria de todo mal). Enfim, a minha estada em casa para o Carnaval foi aprovada, não plenamente, mas aprovada.

Antes dos meus pais irem para o Litoral, fizeram eu repassar todas as recomendações e me deixaram R$ 30,00 (que naquela época era uma boa grana) para os quatro dias de Carnaval. Claro que este dinheiro era para ser usado em comida, não bebidas. Se foram para o litoral e aí eu fiquei gigante, já começando a cagar fora do pinico.  Eles dobraram a esquina e corri para o mercado para comprar aquelas massas pré-prontas que custavam na época cinquenta centavos o pacotinho. Comprei dois pacotinhos para cada dia, almoço e janta e foda-se o resto das refeições. Assim me sobraram R$ 26,00 que era para eu gastar no festerê!!!

Sabe como é, Carnaval, muita bebida e pegar a mulherada geral (a expectativa sempre extrapolando a realidade!) Mas esta grana não daria para beber as quatro noites na festa, então resolvemos (as parcerias do colégio) que faríamos “esquentas” antes de ir para o clube, em cada noite de carnaval e com a soma de todos os dinheiros, a bebedeira era certa. Em reunião deliberativa ficou acordado que o esquenta começaria na sexta-feira. Tchê, pensa em um cara que estava “solto das pata”, independente total, mandando no seu próprio nariz e ligando o foda-se geral. O negócio era festa, trago e… deixa pra lá, já que a mulherada não vinha na quantidade imaginada, o negócio era beber.

Adolescente é um bicho burro mesmo. Chegou na sexta-feira, hora marcada, já na casa das parcerias para tomar uns goró. Éramos cinco no total, abrimos os trabalhos tomando o que o dono da casa tinha em casa (porra, excelente mais bebida e sem custo), ou seja, um terço de conhaque – bebidinha refrescante para o verão senegalês do Rio Grande do Sul – meia garrafa de whisky e uns dois dedos daquela merda de Martini (olha a propaganda aí de novo). Entre um raspa tacho e outro a Marlene, verdadeira dona da casa e mãe do meu amigo já alertava: “vocês não acham que já tomaram demais”? Já não estávamos achando nada, naquela altura do campeonato, só que precisávamos era chegar no boteco e comprar mais alguma coisa para se hidratar.

Chegamos no bar, pedimos duas cervejas – para tomar in loco – e um garrafão de vinho para viagem. Não perdemos tempo, pois o esquenta não podia parar. Já de volta ao QG, começamos no vinhozinho, de leve e lá se foram os 5 litros do garrafão. Uns mais, outros menos bêbados deliberamos que era hora de sair para comprar mais alguma coisa para beber. Porém, como o dinheiro eu tinha deixado em casa, saímos em comboio para busca-lo.

O melhor seria ter ficado por lá, pois o caminho de pouco mais de cinco quadras entre a casa do meu amigo e a minha parecia a distância da romaria ao Pe. Reus (vai no Google!), principalmente quando você já está andando em zigue-zague. Mas foi no meio do caminho que a porra ficou séria de vez e aconteceu o que, com certeza, me daria o título de Campeão Mundial em Fazer Merda por antecipação. Um dos filhas da puta grita – “olha a barata, ali na parede”. Com toda a minha astúcia devolvo – “onde está essa merda de barata, porque hoje ela vai morrer”. O infeliz aponta para a parede, inflo os pulmões como quem diz, deixa pra mim, dou dois passos para trás como se fosse bater o pênalti que decidiria o campeonato e corro em direção a bola, digo, a barata e chuto! Não, tu não estás entendendo, foi um chute tão forte que cai sentado depois que desferi o fatídico golpe.

Para encurtar a história, ao me acordar no outro dia de manhã, em casa – não me pergunta como fui parar lá – quando fui me levantar para fazer aquele xixi gostoso da manhã, depois de vencer o alicerce que estava sobre a minha cabeça, coloco o pé no chão e solto um urro, ao mesmo tempo que tento não vomitar o quarto inteiro, olho para o meu dedão do pé (que uns dizem parecer um microfone). O coitado do dedo estava gigantesco e roxo! Puta que os pariu, me fui para o posto de saúde, o médico me olha com um risinho de canto de boca, depois de olhar o raio X e lança: como tu quebrou este pequeno dedinho?

Eu não ia passar o Carnaval inteiro em casa, comendo massa, passando calor e com o dedo do pé latejando. No sábado de tarde estava chegando na casa do litoral – graças a carona que consegui com uns amigos dos meus pais que também tinham casa na mesma praia – minha mãe abriu um sorriso de orelha a orelha ao me ver chegar, cujo semblante mudou quando eu abri a porta do carro, tirei uma muleta, depois a outra e caprichosamente sai de dentro do veículo. O melhor – quer dizer foi péssima – a historinha infame que contei sobre o ocorrido: “bah mãe, escorreguei no corredor de casa e bati com o pé na parede, muito azar o meu, não acha”? Meu pai parado ouvindo a história se levanta, dá dois tapinhas no meu ombro e diz – “está bem, eu acredito”. Mãe é mãe, não tem jeito!

Não só passei o resto do Carnaval na praia como todo o resto da temporada, curtindo as benesses do litoral gaúcho, de pé para cima como se fosse patrão.

 

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2 comentários em “FERROU MEU CARNAVAL”

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