MAIS UMA DO VERÃO, AGORA NA ESTRADA!

Senta que lá vem história! E claro, mais uma vez o verão, a praia e a estrada protagonizando as risadas de uns, a vergonha alheia – no caso a minha – e a raiva de outros.

Pois bem, como já disse em outro texto – sinceramente espero que você já tenha lido aqui neste site/blog ou seja lá o que você quer chamar este espaço – eu e a praia nunca tivemos uma boa relação depois que entrei na minha adolescência. E alguns destes motivos você ficará sabendo clicando aqui, pois não vou contar de novo.

Todos os verões os meus primos, tia e tio iam para nossa casa na praia passar uns dias, semanas e algumas vezes o mês todo. Sempre muito divertido, muitas risadas e brincadeiras. Naquele ano ficaram para o Carnaval, aquele ziriguidum gostoso, vamos beber, cair e levantar – brincadeira, não tínhamos idade para isso (ainda), deixávamos para os adultos essa parte, não que eles fizessem, mas enfim, vamos ao primeiro foda-se do texto e voltar ao que interessa – afinal de conta, quem nunca passou uma vergonhazinha no carnaval, que atire a primeira pedra.

Não sei precisar datas, pois como já comentei aqui, não sou muito bom com elas. E como tudo que é bom acaba, não só a estada dos meus primos estava chegando ao fim, mas a nossa também. Final do mês de fevereiro, logo as aulas estariam começando e precisava levantar o acampamento e voltar para a cidade. Porém, o que foi para a praia no início da temporada de coisas importantes e bugigangas, no regresso são sempre infinitamente maiores e neste ano seria melhor proporcionar uma aventura diferente para quem quisesse se candidatar a participar dela: duas crianças voltariam de ônibus para casa; as bugigangas ocupariam espaço. De pronto já levantei o braço, como perderia uma merda, digo, aventura destas. E a outra boa alma que deixaria espaço no carro para colocar tralhas foi a minha prima.

As passagens precisaram ser compradas com antecedência, pois só quem já esteve em temporada no litoral norte gaúcho – um paraíso, só se for no inferno, que coloca as paradisíacas praias do litoral catarinense no chinelo – sabe que depois do carnaval, então, é uma carnificina tentar se aventurar a comprar passagens para regresso as cidades. Sendo assim, os dias que antecederam a nossa aventura foram de muitas especulações, entre uma ida a praia e outra, de voltas de bicicleta solto pela cidade (praia) e idas na sorveteria, a ansiedade tomava conta. E porra, nós dois éramos os destemidos, os aventureiros, os “pikas das galáxias”, voltaríamos da praia de ônibus e sozinho, catso! Uns dias antes da viagem, acredito por causa da ansiedade ou já prevendo (inconscientemente) a merda que estava por vir, me estourou afitas na boca, roía mais as unhas do que o normal e só pensava nessa viagem.

Chegou o grande dia, malas prontas, banho tomado, aquela olhada no relógio – nem 10h da manhã – agora só esperar o ônibus passar as 14h (nesse tempo ele passava na esquina da minha casa, que era na esquina da avenida). E ainda me chamam de ansioso, mas acho que essa antecipação é precaução.

Aos que pensam que o ônibus era leito, com ar condicionado, suspensão a ar e todos os parangolés, deem uma olhada no naipe da condução:

Foto: João Henrique
Foto: João Henrique

Agora, adiciona aí que o bólido não tinha ar-condicionado, a viagem que poderia ser feita em duas horas era realizada em mais de três horas e meia, quando não tinha movimento; era pinga-pinga, parando em cada moita para subir passageiro; e que não tinha essa “frescura” de que os passageiros tinham que viajar sentados. Ah, de vez em sempre, as janelas não abriam direito e a temperatura dentro do ônibus devia passar dos 35ºC fácil, na sombra!

Somos guerreiros, não fugimos a luta e “o ônibus está chegando, vamos lá Jurema” (nome fictício para que não reconheçam a minha prima, coitada, até hoje deve me odiar por isso, talvez essa história tivesse esquecido no cantinho do cérebro dela), gritei eu. Hora da aventura, da diversão e lá vamos nós!!!

As coisas já começaram a sair fora do planejado na subida do ônibus, quando fui para me sentar na poltrona da janela – naquela época eu conseguia me acomodar sem ficar com o joelho na orelha ou espremido como sardinha em lata – e minha prima já manda: “na janela eu vou”. Tentei argumentar que eu precisava ficar na janela por causa do vento, do ar e para não enjoar. Acha que eu demovi ela dessa ideia de me ceder o lugar? Nem vou responder, este meu jeito de não querer me incomodar só me fode. Le me fui, para começar a nossa aventura naquele forno com rodas, e para ajudar adivinha? Sabe aquelas poltronas que ficam entre as duas janelas, ou seja, não abre onde você está, só na fila da frente, ou na fila de trás? Pois é essa era a nossa.

O ônibus começou a virar as rodas, dobrou a esquina para começar a aventura, digo, viagem, digo, suplício e balançava mais do que canoa em alto mar, cada parada mais gente com a mesma ideia de se “aventurar” para voltar para casa. Saímos da rodoviária de Osório, última parada antes de entrar na freeway – já disse que é a estrada que liga o litoral a Porto Alegre – ônibus lotado e gente que iria encarar a viagem toda de pé, a temperatura dentro daquela merda aumentava na mesma proporção que o trânsito ia parando e o meu enjoo com isso aumentava nessa mesma proporção.

Cacete, não é ser pessimista, mas vai ter azar assim lá na puta que os pariu, uma tia que estava de pé no corredor se escorou no encosto de cabeça da minha poltrona, o marido/namorado do lado, o trânsito parado e, para ajudar ainda mais, a mulher deve ter dado uma cagada e não limpou a bunda direito, pois o fedor de cu sujo indo e vindo na altura do meu nariz – devo dizer que não estava ajudando em nada no meu enjoo, ao contrário a coisa estava ficando crítica – estava me deixando com náuseas. Não satisfeita a tia resolve levantar os braços – acho que foi a primeira vez que vi uma mulher com sovaco cabeludo – e a fedentina de asa se juntou com a de merda, virei para a Jurema e “por favor, deixa eu sentar na janela, estou enjoado”. De forma bem sucinta a resposta foi um não.

Se a minha prima soubesse o que estava por vir, não só deixaria eu sentar na janela como também era capaz de ter tentado a sorte em pé, o resto da viagem. Já estava puto, liguei a tecla do foda-se, não estava mais me segurando e fiz a última tentativa de pedir para trocar de lugar e encostar a cabeça no encosto da frente. Diante da negativa e de não ter resolvido me apoiar a frente, recostei perto daquela bunda cagada, mas já era tarde, “melhor para fora do que para dentro”, já diria o Shrek. O primeiro jato de vômito foi na minha perna, nas pernas e travesseiro da Jurema. Nestes milésimos de segundo aquele clarão se abriu no ônibus, a bunda cagada pulou para o lado e a temperatura já caiu uns 5ºC, a segunda golfada veio forte no chão, a galera levantando as tralhas que estavam embaixo das poltronas e aquele misto de “coitadinho, não está passando bem” e “filho da puta, que nojo”.

Não vou negar que estava com alma lavada, me senti vingado por não ter conseguido o lugar na janela, não só no início mas nos intermináveis avisos de que estava enjoado. Mas como toda as guerras trazem alguns efeitos colaterais para a sociedade, no caso os que se encontravam no ônibus, depois do ocorrido tivemos mais umas três horas de viagem com aquele cheiro característico, fermentado com o calor daquele inferno de ônibus, a bunda cagada e o visual daquele rio que se movia, para frente e para trás, a cada freada e arrancada do motorista. Até hoje me pergunto se isso foi a causa de ficarmos, minha prima e eu, uns anos sem nos falarmos e, também, não me recordo das nossas famílias curtirem férias de verão juntas novamente (há um pouco de exagero nesta última frase).

Sou grato que naquela época não tínhamos smartphone e nem conexão móvel, se não estaria passando vergonha até hoje, além de ter virado meme nas redes sociais. Obrigado! Assim, somente as 100 pessoas que estavam dentro daquele ônibus foram testemunhas oculares do ocorrido. E sabe como é: o que aconteceu no ônibus, fica no ônibus!

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2 comentários em “MAIS UMA DO VERÃO, AGORA NA ESTRADA!”

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