MINHAS FÉRIAS

Verão chegou, hora das merecidas férias. Afinal de contas, ninguém é de ferro.

Então vamos aos preparativos – cada dia perdido é um dia a menos aproveitado – separa roupa, protetor solar, roupa de banho, brinquedo das crianças; carro abastecido (aí já fica parte de um rim), pneus calibrados; carro carregado, dinheiro do pedágio separado, sinal da cruz feito e vamos que vamos. Ops! Vamos não seria o termo apropriado, mas sim vão, esposa e crianças para praia, curtir as férias. Eu fiquei por aqui mesmo.

Mulher e crianças na praia, casa só para mim. Tudo esquematizado: churrascada com os amigos, cerveja gelada no lugar substituindo a água, sem precisar arrumar a cama, dobrar roupa, chegar chutando o sapato para um lado e a roupa para outra; tomar banho na hora que quiser (e se quiser). Louça na pia, sem reclamar, curtindo um ar fresco de rua sem estar claustrofobicamente trancada no armário. Sem criança correndo e bagunçando tudo. Enfim, sem medo de errar:

“Quem manda aqui sou eu, porra!”

Serão 20 dias vivendo mais ou menos como o filme Ferris Bueller’s Day Off. Ou para deixarmos tudo em português claro – o título em inglês foi só para fazer charme – vinte dias como o filme Curtindo a Vida Adoidado.

A dona Patroa ligou dizendo que chegou bem na praia, as crianças já estavam voando baixo, revendo os amigos do verão passado, viagem tranquila. Agora não tem mais volta, também estou de férias. Porém, como nem tudo são flores, planejar é uma coisa, realizar é outra completamente diferente. Aquela história da cerveja gelada já tinha caído por terra antes de começar o ano – uma noção do porquê pode ser lida clicando aqui – sem qualquer bebida com álcool, no mínimo até a metade das minhas férias.  O churrasco com os amigos eu programei, mas não avisei os maiores interessados.

No mais, como voltei do Ano Novo em Gramado com o diagnóstico de infecção pulmonar, tossindo feito um condenado, com secreção (catarro mesmo) saindo aos quilos e ainda com reflexo do tombo de São Paulo, com uma dor do caralho que juntamente com a tosse não me deixava dormir mais do que três horas por noite dá até para ter uma ideia como estava começando as minhas férias. Se não conhecesse muito bem a minha sogra, podia jurar de pé junto que isso tinha sido praga dela.

“Nada é tão ruim que não possa piorar”

Eu queria saber quem é o filho de uma meretriz que inventou essa frase, que grudou de uma forma em 2016 e está dando provas todos os dias do início deste ano. No segundo dia das minhas férias, por causa das chuvas que ocorreram acabou dando deslizamento de terra em Rolante (leia a matéria aqui no G1, pois não sou portal de notícias para ficar dando informações), o que acabou refletindo aqui na minha cidade com o corte de abastecimento de água. Logo, quatro dias sem água, aquele banho de gato e a louça na pia já sentindo saudades de estar trancada no armário devidamente limpa e cheirosa.

As férias não podem parar. E nem as merdas de acontecer! No quarto dia – e não se preocupe que não vou contar os meus vinte dias de férias, pois isso aqui não é diário – vou almoçar na casa da minha tia, pois as comidas que a minha “senhoura” tinha deixado congeladas já não existiam mais, quando volto para casa aquela surpresa: área toda suja de sangue! Dou aquela olhadela para a cusca e não vejo nada de mais, já não sangrava, então, hora de limpar aquela sujeira. Ainda bem que choveu e tinha água no balde, taquei um desinfetante e foda-se as calotas, o que importa é que limpou e ficou cheiroso. Em compensação eu já estava começando a putrefar sem banho e nem menção de voltar a água.

É o quinto dia. Entre uma catarrada aqui, uma tossida acolá, um cheiro de asa dos infernos me vou para almoçar na casa da minha tia de novo. Aqui abro aquele parêntese amigo: já deu para notar que estou abusando indo roubar almoço todos os dias. Como estava chovendo a cachorra ficou dentro de casa, e adivinha se não tinha sangue pela sala toda novamente? Mais um dente que bate em retirada da boca da velha cusca. Puta que os pariu, joguei pedra na cruz ou enterraram um sapo em algum lugar, pois as minhas férias estavam mais para Férias Frustradas, o filme.

E não é que no sexto dia fui visitar o terceiro médico diferente em menos de trinta dias, fazer a terceira radiografia e gastar mais um caminhão de dinheiro com remédios. Ainda bem que para todas as outras existe Mastercard, te afagando de um lado e te atolando 600% ao ano por outro.

O que importa é que o abastecimento de água voltou na cidade, a lavagem de roupa, da louça e do sovaco ficaram em dia. Agora é curtir as minhas férias, pois os remédios estão fazendo o efeito, a produção de catarro caiu em meio quilo por dia e as horas dormidas durante a noite haviam dobrado. Agora vai…

Vai “capiroto dos infernos assolar outro desinfeliz”. Sem água de novo! Liga para a empresa responsável pelo abastecimento da cidade e “a água está normal no seu bairro, senhor, dê uma olhada se o seu registro não está fechado”, me disse o simpático atendente. Me fui, batendo as chinelas, entre uma tossida e uma catarrada, olhar o registro e… puta que os pariu, cortaram a água. Não vou entrar em detalhes como consegui dinheiro para pagar as contas e reestabelecer o abastecimento. Já adianto que não foi vendendo o corpo, mas se você quiser saber vou deixar os meus dados bancários para uma contribuição de T$ 50,00 (cinquenta temers) e te conto em detalhes.

Até a tia da Padaria tira uma onda com a minha cara afirmando: “tu estás desasado, mulher de férias com as crianças, né”? Só porque estou, todos os dias das minhas férias, comprando pão e salsicha para jantar. Olha, estou só por amanhã no final do dia, quando a D. Patroa volta para casa com os pequenos, pois realmente a saudade aperta e eles fazem muita falta. “Uma casa cheia e com criança tem mais vida”, já dizia a minha avó. Mas até a chegada deles, aquela faxina vai se fazer necessária, pois se não bebi e não teve churrascada, roupa atirada e desorganização foi o que não faltou por aqui.

E para encerrar as minhas férias e este texto, pois já passa da meia noite e logo mais vassoura, balde e desinfetante me esperam, deixo registrado que não quero mais brincar de “quem manda aqui sou eu”.

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