O PARTO

Não é de hoje que eu sou campeão de passar vergonha pelas bolas foras ou de quebrar alguma coisa na hora das lidas domésticas. Claro, que no dia do parto do meu primogênito não foi diferente.

Tudo começou… ah, vocês sabem, não preciso entrar nos detalhes de que escrevemos para a cegonha ou da sementinha na barriga da mamãe, correto? Mas a história do parto começou ainda nas consultas com a Dra. Jucélia (nome fictício, pois não quero processo por danos morais ou algo que valha), quando ainda estava sendo decidido se seria parto normal – vontade da mãe – ou cesárea, ideia defendida por mim e pela médica, tendo em vista que o pequeno não seria tão mignon assim. Um dos meus argumentos para refutar o parto normal foi:

“Mas Dra. Jucélia, eu não tenho formação na área médica. Sou formado em administração de empresas (que mais tarde se mostrou uma grande bosta), logo, não sou treinado para fazer parto e, também, não vou sujar o meu carro – que diga-se de passagem, recém tínhamos tirado da concessionária”, aleguei com todo o meu poder de convencimento.

Além do mais, naquela época (2008) não tínhamos a BR-448 concluída (não sabe o que é vai no pai de todos os burros), ou seja, um trajeto que poderia se percorrer em quarenta e cinco minutos, levava mais de uma hora e meia. E depois que arrebenta a bolsa é aquele Deus nos acuda, vide o parto do segundo filho, mas isso é para outra história. Outro argumento, agora da médica para que o parto fosse cesárea era que o Dudu seria uma criança muito grande, tendo em vista a minha altura e da minha senhoura.

Pois bem, depois de avaliar, fazer a prova real ver os prós e os contras, para quem nunca tinha ganho nem em par ou ímpar, a minha vontade e da médica foi a vencedora. Chegou o grande dia, que ficou acertado que seria em uma segunda-feira, dia 10 de novembro. Até poucos dias eu tinha dito que não assistiria o parto, mas mudei de ideia – e seja lá porque desta mudança, sou eternamente grato – e foi o sentimento mais incrível que tive na minha vida. Ver o nascimento de uma criança, de uma vida e do teu filho é uma experiência que só quem já passou sabe do que estou falando.

Chegamos no hospital, patroa para um lado, pai para o outro, ambos em preparações diferentes e óbvias, claro, me fui para uma salinha para trocar a roupa. Não pude deixar de pensar: “vou passar vergonha, pois com certeza a roupa que separaram para eu usar deve ser minúscula, a calça vai parecer de caçar marreco no banhado e a camisa (ou capa, sei lá!) vai me deixar com a minha barriguinha de fora”. Mas enfim, foda-se, quem está na chuva é para se molhar e é nascimento do meu primogênito, porra! E não é que roupa serviu que é uma luva, estava bonitão, todo de azul, com a toca e máscara já devidamente posicionada e aquele frio na barriga ligado no nível máximo.

“Vamos lá, papai”, me chamou a enfermeira. De pronto dei um pulo da poltrona na sala de espera e me coloquei em forma (mentira, não conseguia nem caminhar de tão nervoso) e antes de entrarmos na sala de cirurgia ela mandou eu lavar as mãos e me mostrou como deveria ser feita a higienização, por um momento achei que teria que entrar no tanque para me higienizar, mas enfim, vamos que vamos guerreiro. Jamais tinha entrado em uma sala de cirurgia, nunca vi algo tão iluminado e branco, por um momento achei que estava no céu, quando entro todos me olham, não falaram mas devem ter pensado, “olha a cara de guri cagado” e se regozijaram com a cena.

Cagado eu fiquei quando vi a minha esposa deitada de braços abertos e com as mãos amarradas. “Puts, imagina o que ela não aprontou para estar amarrada, que vergonha”, pensei. Nisso a médica – nossa amiga, lembra – falou para eu me sentar e não desmaiar pois ninguém ia me juntar, no máximo o anestesista me chutaria para o lado para não atrapalhar. Primeiro fiquei tentando acha-la naquele mar de gente dentro da sala cirúrgica tudo mascarado e vestido igual, depois de devidamente localizada dei aquela risadinha já tonto e fui procurar o anestesista, que se muito não devia ter mais do que um metro e meio e 60kg, logo o que ele menos conseguiria era me chutar para algum lugar.

Pois bem, me sentei ao lado da patroa amarrada e de pronto ela me tasca, se não faltasse mais nada para eu estar nervoso e totalmente cagado – já até querendo me arrepender de participar disso tudo – ela amorosamente diz:

       “Se eu morrer hoje, tu prometes que cuida do nosso filho? Me promete?”

O que tu vai dizer em uma hora dessas? Só concordei e comecei a suar nos olhos. Mas voltemos ao parto em si: médicos posicionados e a Dra. Jucélia achando que era o Galvão Bueno, narrando o que estava fazendo ou então, uma hora achei que até começou a se distrair com conversas paralelas, falta de foco ou atenção. Estava ela e outra médica conversando a respeito do show da Madonna, que estaria a poucos dias dali na Argentina. Papo vai, papo vem, combinações de voos, hotel e compra de ingresso e não me aguentei. E foi hora de passar vergonha:

       “Não quero me meter no trabalho de vocês, mas poderiam parar de conversas paralelas e focar no trabalho de vocês?”

Naquele momento parecia que eu tinha dito a maior piada de todos os tempos, pois todos riram. Inclusive a minha esposa que até alguns minutos atrás estava pedindo para eu cuidar do nosso filho se ela morresse naquela mesa de cirurgia. Era melhor eu ter ficado quieto ou ter desmaiado – ia ser engraçado o peso mosca tentando me tirar de perto para não atrapalhar – como teria dito a médica. Pois ela começou a pegar no meu pé de uma forma, depois de ter me xingado, é claro, pela intervenção; entre outras coisas que meu filho não tinha nada a haver comigo, pois tinha o cabelo encaracoladinho e olhos escuros. “Azar, Dra. Jucélia, pois pai é quem cria”, disse eu.

Nasceu o pequeno Dudu, demorou um pouco o choro e fiquei na espreita para ver a intensidade do tapa que dariam no bumbum dele, pois se achasse demasiado, voaria já no mata-cobra em cima daquele povo, pois no meu filho ninguém bate. Mas tudo dentro dos conformes, a não ser que a médica esqueceu que não tinha formação na área médica, quando perguntou se eu queria cortar o cordão umbilical. De pronto e educadamente lembrei-a da minha formação – mais um motivo de risadas na sala, até não sei se era de pena pela escolha ou por terem achado engraçado o comentário – e declinei da tarefa. Ok! Filho no colo da mãe, lágrimas do casal é hora de leva-lo para os procedimentos necessários.

Deus é pai, colocaram o meu filho nos meus braços e pavor de deixar escapar, escorregar e a criança cair já nos primeiros momentos de vida. Não me acovardei, peguei no colo e levei a risca o planejamento de não sair de perto até estar devidamente identificado e não ser trocado na maternidade. Não vou negar que titubeei e virei de costas na hora que foram colocar o tubo para limpar as vias aéreas, mas não sem antes contar se o pequeno tinha os cinco dedos em cada mão e pé. “O que tu estas fazendo”, me questionou a enfermeira. “Ué, estou contando para ver se não está faltando nenhum dedo ou se tem dedo demais”, em tom sério para mostrar que não gostava de gracejos com assuntos complexos. Não adiantou, pois ela ficou rindo da minha cara.

Tudo em ordem, primeiro banhinho tomado, devidamente vestido com um body amarelinho deixando o meu alemão parecendo um quindim, foi hora de estreia: que se abra as cortinas, pois a parentada está toda lá para ver ele através do aquário. Vós, Vôs, Tios, Tias, Dindos, Dindas e amigos presente para acompanhar os primeiros minutos de vida do pequeno Dudu.

Vergonhas passadas, chacotas vividas e mais uma vez sou eternamente grato por ter mudado de ideia e assistido o parto. Hoje o nosso pequeno está as portas de fazer nove anos, mas a sensação e a alegria são como se fosse ontem. De lá para cá, muitas coisas quebrei, muitas vergonhas passei; e claro, outras histórias virão!

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3 comentários em “O PARTO”

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